[Terminated]

Hoje de manhã vi uma rapariga que parecia sorridente. Já a acompanho há algum tempo embora mal tenhamos falado uma com a outra, mas havia sempre uma certa interacção virtual. De manhã ela disse que ia começar a falar mais sobre a sua depressão e que se ia abrir mais sobre assuntos relacionados com a saúde mental. Normalmente não vejo vídeos logo que eles saem mas lembro-me perfeitamente que ela o tinha acabado de publicar e estava online há exactamente 23 segundos. Pensei em não ver o vídeo mas acabei por fazê-lo. No vídeo, entre outras coisas, ela falou sobre como estava a lidar com os sintomas secundários da medicação a que estava a ser sujeita e que o médico ainda estava a ajustar da melhor forma para que ela se sentisse minimamente bem.

À noite, já perto das 23 horas, vi que ela tinha colocado outro vídeo. Era o final definitivo dela nas redes sociais. Ela diz que desiludiu muitas pessoas com as coisas que está a atravessar no momento e eu penso como é que alguém se pode desiludir com algo que uma pessoa não controla como é o caso da depressão? Mas não é por isso que estou aqui.

Queria só documentar como me sinto triste por ver alguém que tinha um brilho imenso nos olhos abandonar aquilo que mais adorava fazer por causa de uma maldita doença. Não temos culpa, mas é isso que a depressão faz. Come-nos por dentro, todo o pedaço de alma que resta no nosso corpo evapora, desaparece, vira vácuo. Perdemos o interesse em tudo e abandonamos o que nos faz feliz. E neste último vídeo os olhos dela já não tinham o brilho a que nos habituou.

Senti empatia porque sei pelo que ela está a passar e sei que lhe vai doer muito como me doeu e ainda me dói. As suas forças vão desaparecer e eu concordo guardar a energia que resta para nos mantermos minimamente saudáveis física e mentalmente. Não a reprimo por ter abandonado as redes sociais. Chorei quando vi o vídeo, chorei quando lhe mandei uma mensagem à qual não espero resposta. Sei que é difícil responder quando não se quer responder.

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«Eu preciso mesmo de desaparecer. É isso que eu preciso de fazer.»

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Mega-doses (de amor)

Hoje, como todos os dias, foste a chave para abrir a porta a um caminho onde poderei ser feliz. Foi graças a ti que hoje tive forças para contar à psiquiatra aquilo que se passava – o que a levou a aumentar a minha medicação, mas não me importo – e a enfrentar o que tu sabes que era (e é) o meu maior problema. Não sei quando vais ler isto, mas deixo aqui para saber que no dia 17 de Novembro de 2014, tu podes ter salvo a minha vida do seu prematuro fim.

Ajudaste tantas pessoas a tentar ver e aceitar aquilo que eu tenho. Tal como a psiquiatra disse “não os podes mudar, eles já não vão mudar” e foi isso que me disseste durante meses. Nesses meses em que quis desistir, mas não o fiz apenas por tua causa. Não era capaz de abandonar a pessoa que mais amo neste mundo, a pessoa que mais me apoia, a pessoa que mais me acarinha – a pessoa mais importante da minha vida.

Tu soubeste pôr em palavras aquilo que eu não fui capaz durante muito demasiado tempo. O que eu tenho é como o tempo: não se controla, não se percebe. Temos de aceitar que de manhã pode radiar o sol e ao fim da tarde podem haver tempestades e trovejos e relâmpagos.

És o meu pilar, o meu porto de abrigo. Eu estremeci e senti-me minúscula. Só o teu toque e a tua presença me ajudaram.

Quando não tens mais forças

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Gostava que as pessoas soubessem o quanto sofre alguém com depressão, alguém com um transtorno obsessivo compulsivo, alguém que não se sente bem no meio de multidões e alguém que passa o dia depressivo. Eu digo: é difícil. É difícil levantar de manhã e vestir. A maior parte das vezes pegamos na roupa que vestimos no dia anterior porque a vontade de escolher roupa torna-se uma tortura. É difícil olhar-nos no espelho, e isso quando o fazemos. Somos capazes de ver a nossa alma destruída no nosso reflexo, mas os outros não o vêem. Movemos-nos devagar, sem motivação e sem coragem para fazer nada. Queremos estar deitados na nossa cama, enrolados como uma bola sem ninguém nos chatear – sabemos que ninguém vai perceber aquilo que sentimos, por quê tentar fazer com que os outros compreendam?

Só pensar em sair de casa, enfrentar o mundo lá fora quando o nosso mundo interior já é um caos é uma péssima ideia. Lá fora há pessoas, milhões, biliões de pessoas. Essa gente não se importa com a tua vida, nem lhes pedes que se importem – não é nada com eles. Mas essas pessoas julgam-te e vês-te forçado a tornares-te um deles, alguém que não és. És obrigado a sorrir, a agir como se a tua vida fosse perfeita. Lá fora na selva és um alter ego, és o que não és. Mostras-te forte, usas uma máscara e tentas adaptar-te a esse mundo estranho que é a sociedade. A sociedade que te obriga a sorrir, a seres alguém de sucesso, a seres amado por todos, caso contrário tomam-te como um moribundo. Estar no meio de multidões faz o coração acelerar, faz a visão ficar afunilada, todos os teus sentidos ficam alerta, os teus níveis de adrenalina aumentam, tens suores frios, tremes por dentro e isso não se nota por fora, tens dificuldade em respirar, sentes-te claustrofóbico, queres fugir mas não tens para onde ir, perdes a força nas pernas e só queres atirar-te para o chão naquele momento e encolher-te. Queres fugir do mundo mas vives nele e ele já vive e se apoderou de ti. Queres chorar mas não podes mostrar que estás mal porque ninguém iria perceber o que estavas a sentir.

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Voltas a casa e não queres arrumar, não queres limpar, não queres ler, a televisão não se coloca sequer como hipótese, a Internet cansa-te, só consegues ouvir música que te vai pôr mais triste. Certos pensamentos invadem a tua cabeça, sabes que são absurdos mas, mesmo assim, não és capaz de fugir deles. Não acreditas no que pensas, mas pensas nisso. Os outros acham normal seres um overthinker mas não sabem o quanto pensas nas coisas e ficas obcecado por elas sem tu quereres. Surgem flashbacks de tudo o que passaste no passado, coisas que te marcaram pela negativa, traumas pelos quais passaste, imaginas-te a fazer coisas que não queres fazer e temes que as faças. Começas a perder o controlo da tua mente e achas que vais enlouquecer ou chegas a pensar que já enlouqueceste.

Quanto ao dormir há duas perspectivas: ou dormes o dia inteiro ou não consegues dormir. Não descansas a cabeça, quanto menos descansas mais a tua mente te engana, mais ela brinca contigo, mais ela te coloca em labirintos sem saída, mais tu te perdes dentro de ti. Não és capaz de escapar. Se dormes tens pesadelos com os teus pensamentos intrusos, se não dormes tens pesadelos intrusos. Eles controlam tudo à tua volta, toda a tua vida. Roubam-te a alegria, roubam-te a felicidade, roubam-te tudo o que há de bom na tua vida. Passas a ver tudo numa escuridão imensa e continuas no labirinto.

E quando não tens mais forças, és obrigado a continuar a viver este pesadelo.