Céu nublado com probabilidade de precipitação estrelar

Sais de casa e o Sol espreita entre as nuvens. Fazes uma viagem de quase meia hora pelo rio Tejo para encontrares uma Lisboa cinzenta, escurecida pelas nuvens carregadas de mares de lágrimas que vão cair durante o dia. Bem, ao menos levas chapéu de chuva, que por sinal te emprestaram no dia anterior porque não tiveste paciência de ir buscar o teu à despensa por estares chateado com a vida. A vida não te deu limões senão uma pequena tempestade tropical na hora de regressares a casa. Ainda bem que tinhas o chapéu para te abrigares senão a chuva juntava-se às lágrimas que escorrem pela face da tua alma quando não podem escorrer pela tua face rosada.

 Desces até ao metropolitano. Cinco lances de escadas, cada uma delas com pelo menos doze degraus – impossível contar os degraus das escadas rolantes, ora degraus, ora terra plana. Podias descer ao teu interior mas não o fazes. Fazer o caminho até lá abaixo sufoca-te, dá-te um pequeno ataque de claustrofobia e a tua respiração descontrola-se. Tentas manter-te serena e calma – já passaste por isto antes e vais sobreviver, tal qual como da última vez.

Esperas as carruagens que passam e que tantas vezes te deixaram para trás, não importando o facto de vires a correr escadas abaixo, tropeçando e enrolando os farrapos da tua alma nas pernas. Lá vem ele e lá segues tu. Colocas os auscultadores nos ouvidos, todo o tipo de música é melhor do que ouvir pessoas falarem sobre as suas vidas privadas num espaço público confinado que é uma carruagem. Pegas no teu livro e voltas à página onde estavas quando te levantaste do banco onde esperavas a chegada do metro. Mergulhas nas palavras e foges do mundo real. O mundo imaginário de alguém que já morreu há quase cem anos parece-te perfeito comparando com o que te rodeia. Nadas nas palavras, contornas os parágrafos. Sempre nadando, nadando, nadando. O principal é não parar nunca de nadar, dizes a ti mesmo. É isso, é como respirar. Nadar para sobreviver, como um tubarão – essa criatura marinha incompreendida.

Chegas ao destino e encontras finalmente a única razão pela qual vives. Aquela pessoa que te ilumina, o Sol para o teu dia, a Lua e as estrelas para a tua noite. Não importa onde estejam, essa pessoa faz-te esquecer todos os teus problemas. Esqueces o quanto choraste na noite anterior, esqueces as más palavras que te dedicaram nessa manhã e eliminas todas as más energias que possas trazer contigo. É apenas por essa pessoa que vives. Provavelmente ela não sabe, mas é isso que ela representa para ti: vida. Ela é paz, ela é serenidade, ela é tudo aquilo que não tens quando estás longe dela. Só ela te preenche, só ela desenrola os farrapos nos quais te emaranhaste pelo caminho até ela. Só tens pena que ela tenha chegado a meio da tua viagem pela vida. Se ela tivesse chegado antes teria sido tudo tão mais fácil. Essa pessoa é parte de ti, é um braço, é uma perna… É parte do teu corpo e não o sabe. Não tem a mínima noção que é a razão do teu viver, por mais vezes que lho digas. Quando desabafas com essa pessoa sobre os teus piores pensamentos – incluindo os pensamentos suicidas – essa pessoa ofende-se por achar que não pensas nela. Ela acha que és alguém egocêntrico por quereres tirar a tua própria vida. É nesse momento que te apercebes que há ali alguém que talvez, ou com cem por cento de certeza, sentiria a tua falta se te perdesse para todo o sempre. Essa estrela esteve sempre no teu céu, por mais tempo que tivesse demorado, caiu no momento em que mais precisarias dela. E quando cai, é para todo o sempre.

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