Mega-doses (de amor)

Hoje, como todos os dias, foste a chave para abrir a porta a um caminho onde poderei ser feliz. Foi graças a ti que hoje tive forças para contar à psiquiatra aquilo que se passava – o que a levou a aumentar a minha medicação, mas não me importo – e a enfrentar o que tu sabes que era (e é) o meu maior problema. Não sei quando vais ler isto, mas deixo aqui para saber que no dia 17 de Novembro de 2014, tu podes ter salvo a minha vida do seu prematuro fim.

Ajudaste tantas pessoas a tentar ver e aceitar aquilo que eu tenho. Tal como a psiquiatra disse “não os podes mudar, eles já não vão mudar” e foi isso que me disseste durante meses. Nesses meses em que quis desistir, mas não o fiz apenas por tua causa. Não era capaz de abandonar a pessoa que mais amo neste mundo, a pessoa que mais me apoia, a pessoa que mais me acarinha – a pessoa mais importante da minha vida.

Tu soubeste pôr em palavras aquilo que eu não fui capaz durante muito demasiado tempo. O que eu tenho é como o tempo: não se controla, não se percebe. Temos de aceitar que de manhã pode radiar o sol e ao fim da tarde podem haver tempestades e trovejos e relâmpagos.

És o meu pilar, o meu porto de abrigo. Eu estremeci e senti-me minúscula. Só o teu toque e a tua presença me ajudaram.

Céu nublado com probabilidade de precipitação estrelar

Sais de casa e o Sol espreita entre as nuvens. Fazes uma viagem de quase meia hora pelo rio Tejo para encontrares uma Lisboa cinzenta, escurecida pelas nuvens carregadas de mares de lágrimas que vão cair durante o dia. Bem, ao menos levas chapéu de chuva, que por sinal te emprestaram no dia anterior porque não tiveste paciência de ir buscar o teu à despensa por estares chateado com a vida. A vida não te deu limões senão uma pequena tempestade tropical na hora de regressares a casa. Ainda bem que tinhas o chapéu para te abrigares senão a chuva juntava-se às lágrimas que escorrem pela face da tua alma quando não podem escorrer pela tua face rosada.

 Desces até ao metropolitano. Cinco lances de escadas, cada uma delas com pelo menos doze degraus – impossível contar os degraus das escadas rolantes, ora degraus, ora terra plana. Podias descer ao teu interior mas não o fazes. Fazer o caminho até lá abaixo sufoca-te, dá-te um pequeno ataque de claustrofobia e a tua respiração descontrola-se. Tentas manter-te serena e calma – já passaste por isto antes e vais sobreviver, tal qual como da última vez.

Esperas as carruagens que passam e que tantas vezes te deixaram para trás, não importando o facto de vires a correr escadas abaixo, tropeçando e enrolando os farrapos da tua alma nas pernas. Lá vem ele e lá segues tu. Colocas os auscultadores nos ouvidos, todo o tipo de música é melhor do que ouvir pessoas falarem sobre as suas vidas privadas num espaço público confinado que é uma carruagem. Pegas no teu livro e voltas à página onde estavas quando te levantaste do banco onde esperavas a chegada do metro. Mergulhas nas palavras e foges do mundo real. O mundo imaginário de alguém que já morreu há quase cem anos parece-te perfeito comparando com o que te rodeia. Nadas nas palavras, contornas os parágrafos. Sempre nadando, nadando, nadando. O principal é não parar nunca de nadar, dizes a ti mesmo. É isso, é como respirar. Nadar para sobreviver, como um tubarão – essa criatura marinha incompreendida.

Chegas ao destino e encontras finalmente a única razão pela qual vives. Aquela pessoa que te ilumina, o Sol para o teu dia, a Lua e as estrelas para a tua noite. Não importa onde estejam, essa pessoa faz-te esquecer todos os teus problemas. Esqueces o quanto choraste na noite anterior, esqueces as más palavras que te dedicaram nessa manhã e eliminas todas as más energias que possas trazer contigo. É apenas por essa pessoa que vives. Provavelmente ela não sabe, mas é isso que ela representa para ti: vida. Ela é paz, ela é serenidade, ela é tudo aquilo que não tens quando estás longe dela. Só ela te preenche, só ela desenrola os farrapos nos quais te emaranhaste pelo caminho até ela. Só tens pena que ela tenha chegado a meio da tua viagem pela vida. Se ela tivesse chegado antes teria sido tudo tão mais fácil. Essa pessoa é parte de ti, é um braço, é uma perna… É parte do teu corpo e não o sabe. Não tem a mínima noção que é a razão do teu viver, por mais vezes que lho digas. Quando desabafas com essa pessoa sobre os teus piores pensamentos – incluindo os pensamentos suicidas – essa pessoa ofende-se por achar que não pensas nela. Ela acha que és alguém egocêntrico por quereres tirar a tua própria vida. É nesse momento que te apercebes que há ali alguém que talvez, ou com cem por cento de certeza, sentiria a tua falta se te perdesse para todo o sempre. Essa estrela esteve sempre no teu céu, por mais tempo que tivesse demorado, caiu no momento em que mais precisarias dela. E quando cai, é para todo o sempre.

Quando não tens mais forças

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Gostava que as pessoas soubessem o quanto sofre alguém com depressão, alguém com um transtorno obsessivo compulsivo, alguém que não se sente bem no meio de multidões e alguém que passa o dia depressivo. Eu digo: é difícil. É difícil levantar de manhã e vestir. A maior parte das vezes pegamos na roupa que vestimos no dia anterior porque a vontade de escolher roupa torna-se uma tortura. É difícil olhar-nos no espelho, e isso quando o fazemos. Somos capazes de ver a nossa alma destruída no nosso reflexo, mas os outros não o vêem. Movemos-nos devagar, sem motivação e sem coragem para fazer nada. Queremos estar deitados na nossa cama, enrolados como uma bola sem ninguém nos chatear – sabemos que ninguém vai perceber aquilo que sentimos, por quê tentar fazer com que os outros compreendam?

Só pensar em sair de casa, enfrentar o mundo lá fora quando o nosso mundo interior já é um caos é uma péssima ideia. Lá fora há pessoas, milhões, biliões de pessoas. Essa gente não se importa com a tua vida, nem lhes pedes que se importem – não é nada com eles. Mas essas pessoas julgam-te e vês-te forçado a tornares-te um deles, alguém que não és. És obrigado a sorrir, a agir como se a tua vida fosse perfeita. Lá fora na selva és um alter ego, és o que não és. Mostras-te forte, usas uma máscara e tentas adaptar-te a esse mundo estranho que é a sociedade. A sociedade que te obriga a sorrir, a seres alguém de sucesso, a seres amado por todos, caso contrário tomam-te como um moribundo. Estar no meio de multidões faz o coração acelerar, faz a visão ficar afunilada, todos os teus sentidos ficam alerta, os teus níveis de adrenalina aumentam, tens suores frios, tremes por dentro e isso não se nota por fora, tens dificuldade em respirar, sentes-te claustrofóbico, queres fugir mas não tens para onde ir, perdes a força nas pernas e só queres atirar-te para o chão naquele momento e encolher-te. Queres fugir do mundo mas vives nele e ele já vive e se apoderou de ti. Queres chorar mas não podes mostrar que estás mal porque ninguém iria perceber o que estavas a sentir.

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Voltas a casa e não queres arrumar, não queres limpar, não queres ler, a televisão não se coloca sequer como hipótese, a Internet cansa-te, só consegues ouvir música que te vai pôr mais triste. Certos pensamentos invadem a tua cabeça, sabes que são absurdos mas, mesmo assim, não és capaz de fugir deles. Não acreditas no que pensas, mas pensas nisso. Os outros acham normal seres um overthinker mas não sabem o quanto pensas nas coisas e ficas obcecado por elas sem tu quereres. Surgem flashbacks de tudo o que passaste no passado, coisas que te marcaram pela negativa, traumas pelos quais passaste, imaginas-te a fazer coisas que não queres fazer e temes que as faças. Começas a perder o controlo da tua mente e achas que vais enlouquecer ou chegas a pensar que já enlouqueceste.

Quanto ao dormir há duas perspectivas: ou dormes o dia inteiro ou não consegues dormir. Não descansas a cabeça, quanto menos descansas mais a tua mente te engana, mais ela brinca contigo, mais ela te coloca em labirintos sem saída, mais tu te perdes dentro de ti. Não és capaz de escapar. Se dormes tens pesadelos com os teus pensamentos intrusos, se não dormes tens pesadelos intrusos. Eles controlam tudo à tua volta, toda a tua vida. Roubam-te a alegria, roubam-te a felicidade, roubam-te tudo o que há de bom na tua vida. Passas a ver tudo numa escuridão imensa e continuas no labirinto.

E quando não tens mais forças, és obrigado a continuar a viver este pesadelo.